Muitas vezes, quando os pacientes chegam à nossa clínica e observam as finíssimas agulhas de acupuntura, surge a dúvida legítima: “Como é que um simples filamento de metal pode tratar uma dor nas costas, uma tendinite crónica ou aliviar uma enxaqueca?”
A explicação tradicional da Medicina Chinesa fala-nos de Qi (energia) e Meridianos/Canais. Mas, para a mente ocidental e científica, por vezes isso soa abstrato. A verdade é que existe uma explicação biofísica concreta, palpável e fascinante para o funcionamento da acupuntura.
Não é magia, é fisiologia. E um dos grandes responsáveis por este sucesso terapêutico chama-se Efeito Piezoelétrico.
Hoje vamos mergulhar “debaixo da pele” para explicar porque é que a agulha consegue fazer algo que nem a tecnologia mais avançada de Laser consegue replicar totalmente.
1. O que é o Efeito Piezoelétrico?
Pode parecer um termo complexo da física, mas o conceito é simples. A piezoeletricidade é a capacidade que certos materiais têm de gerar uma carga elétrica quando são sujeitos a uma pressão mecânica (ou seja, quando são apertados, esticados ou torcidos).
Vamos a um exemplo prático:
Imagine aqueles isqueiros de cozinha de “clique” (que não usam pedra). Quando pressiona o botão com o polegar, um pequeno cristal no interior recebe essa pancada (stress mecânico) e transforma-a numa faísca elétrica.
O princípio na acupuntura é exatamente o mesmo: transformamos um movimento mecânico num sinal elétrico.
2. O Seu Corpo é um “Cristal Líquido”
Ao contrário do que se pensa, este efeito elétrico não vem apenas da agulha de metal. Ele é gerado pelo seu próprio corpo, especificamente pelo Colagénio.
O tecido que envolve os nossos músculos, órgãos e ossos chama-se Fáscia. A fáscia é riquíssima em fibras de colagénio. Do ponto de vista da biofísica, o colagénio comporta-se como um cristal líquido. Quando o tocamos ou manipulamos, ele reage.
3. O Mecanismo: A “Técnica do Esparguete”
É aqui que a acupuntura se distingue de tudo o resto. Quando inserimos a agulha num ponto específico e fazemos uma pequena rotação ou manipulação, ocorre um fenómeno microscópico crucial:
- Enrolamento: As fibras de colagénio da fáscia enrolam-se à volta da haste da agulha, tal como esparguete num garfo.
- A Sensação típica da acupunctura: É este enrolamento que causa aquela sensação estranha que o paciente sente — um peso, uma leve pressão ou uma sensação de “prisão”. Na Medicina Chinesa chamamos-lhe “a chegada da energia”. Na medicina ocidental, chamamos-lhe acoplamento mecânico.
- A Descarga: Ao rodar a agulha e esticar essas fibras enroladas, estamos a criar tensão mecânica no colagénio. E, tal como no isqueiro de cozinha, essa tensão gera uma micro-corrente elétrica local.
4. O Impacto Terapêutico: Porque é que isto cura?
Esta eletricidade gerada localmente não é acidental. É um sinal biológico potente que o corpo entende como um comando de reparação.
- Sinalização Celular: A carga elétrica alerta as células vizinhas (os fibroblastos) de que algo está a acontecer. A reação destas células é libertar substâncias anti-inflamatórias e analgésicas naturais.
- Reorganização do Tecido: A eletricidade orienta a reparação das fibras. É por isto que a acupuntura é excelente a tratar cicatrizes antigas, fibroses, contraturas e tendinites. A tração mecânica e a carga elétrica “obrigam” o tecido a reorganizar-se de forma alinhada e saudável.
- Comunicação à Distância: Esta carga elétrica pode viajar ao longo dos planos da fáscia (que curiosamente, coincidem muitas vezes com o trajeto dos Meridianos/Canais descritos há milhares de anos). Isto explica, do ponto de vista neurofisiológico, como um ponto na mão pode ter efeito no pescoço ou nas costas.
5. Agulha vs. Laser: A Diferença Crucial
Na nossa prática clínica, utilizamos tanto a Acupuntura como o Laser. Ambos são excelentes, mas têm funções distintas baseadas neste mecanismo.
Muitos pacientes perguntam se o Laser não substitui a agulha, por ser totalmente indolor e imperceptível. A resposta é: depende do objetivo.
- O Laser (Fotoquímica): O laser entrega energia (luz) que é absorvida pelas células para produzir “combustível” (ATP). É fantástico para acelerar a cicatrização e reduzir inflamação, mas funciona por uma via química.
- A Agulha (Biomecânica): A agulha cria eletricidade através da mecânica. O laser não consegue enrolar colagénio. O laser não consegue esticar fisicamente uma aderência interna.
Conclusão Clínica
Se o seu problema envolve uma alteração da estrutura física — como uma contratura muscular rígida, uma cicatriz com aderência, uma fáscia “colada” ou uma tendinite crónica — o efeito piezoelétrico da agulha é insubstituível. Precisamos dessa tração mecânica para reorganizar o tecido. Também no tratamento de tecidos mais profundos, como nos casos de hérnia discal, o efeito da acupunctura é superior, proporcionando resultados mais rápidos e duradouros.
Se o objetivo é dar energia pura às células para recuperarem de fadiga ou inflamação superficial, o laser é uma boa ferramenta.
Na maioria das patologias complexas, o segredo está em saber quando usar a “chave de fendas” (agulha) e quando usar o “carregador de bateria” (laser).
Sente que tem uma lesão antiga que “nunca fica boa” ou uma tensão muscular que não cede com massagem? É provável que o seu tecido precise deste estímulo mecânico e elétrico para se reorganizar.

